Combater o patriarcado que há em nós: nota pública face a uma acusação de machismo no Climáximo

Vivemos numa sociedade patriarcal. Sabemos que comportamentos machistas e sexistas são replicados, propagados e normalizados fora e dentro de colectivos. O Climáximo não é uma excepção.

Há cerca de um mês chegou até nós uma queixa de um comportamento machista e de abuso de poder ocorrido há aproximadamente quatro anos por parte de um ativista do Climáximo, o qual continua a integrar o colectivo. Situações como esta não podem ser ignoradas.

Nos últimos 2 anos, um dos compromissos principais no Climáximo tem sido “contrariar e desmantelar dentro do nosso colectivo as dinâmicas socioculturais de hierarquia de poder e privilégio”.

No final de 2021 criámos um processo interno de resposta a acusações de machismo, com base em justiça transformativa, com o fim de visibilizar, combater e mitigar o patriarcado enraizado em nós.

Assim, ao tomarmos conhecimento desta situação, lançámos de imediato este processo: entrámos em contacto com a pessoa que fez a acusação e em poucos dias foi criada uma comissão constituída por ativistas do Climáximo não homens-cis. Esta comissão, numa fase imediata, optou primeiramente por tentar entender se existiram mais queixas e/ou necessidades de outras pessoas relativas à pessoa acusada.

Depois de várias semanas de escuta atenta, compreensão de necessidades, reflexão e atuação, chegámos ao fim deste processo de transformação e desafio individual e colectivo. Queremos partilhar com todas as nossas aprendizagens.

Ao longo deste processo tivemos três prioridades: garantir um espaço seguro para partilha da situação e necessidades da pessoa que sofreu o impacto da situação reportada; desafiar a pessoa acusada e todo o colectivo, com o fim de mitigar comportamentos futuros; criar um espaço em que todas as ativistas tenham condições mais seguras para trabalhar.

Nos primeiros dias focámo-nos na primeira prioridade, falando com a pessoa queixosa, que acabou por escolher não participar activamente no processo interno. Assim, uma vez que não iríamos contar com a sua experiência completa e participação, escolhemos não focar a investigação no que aconteceu exatamente. Sabíamos o que importa: uma pessoa sofreu danos devido a comportamentos machistas de um de nós. Decidimos focarmo-nos no que conseguíamos: identificar comportamentos errados com base na informação que tínhamos, e perceber como desafiar a pessoa acusada e o coletivo a ser menos machista e mais feminista.

Foram semanas de aprendizagem e crescimento. Algumas passaram horas e horas a consultar informação sobre justiça transformativa e machismo. Algumas cuidaram dos processos. Outras tiveram que garantir que as nossas atividades continuavam, porque vivemos em crise climática. Muitas tiveram que fazer um grande trabalho emocional. Muitas cuidaram umas das outras.

Estes foram os passos que conseguimos dar, a nível individual e do colectivo:

  • O homem acusado foi desafiado a refletir, identificar e partilhar com todo o colectivo quais foram os comportamentos errados, os danos que pode ter provocado, quais os possíveis impactos e o que poderia ter sido feito de forma diferente. A comissão deu vários recursos de apoio e acompanhou-o. Teve igualmente que apresentar à comissão que mudanças de comportamento passará a fazer para garantir a mitigação de futuras situações, tal como comportamentos que está a tomar agora para que as restantes colegas se sintam seguras a trabalhar com ele.
  • Tornámos mais visível e acessível a todas as várias formas de como podem fazer queixas sobre situações de machismo/abuso de poder, e sobre o processo para responder a acusações de machismo no Climáximo. Vamos igualmente melhorar estes processos, com base nas aprendizagens adquiridas.
  • Selecionaram-se recursos que possam vir a facilitar o trabalho de possíveis futuras comissões, bem como recursos que possam facilitar a identificação, mitigação e ação face a possíveis situações de machismo (estes podem ser consultados no fim da nota).
  • Adaptámos a formação interna sobre feminismo, a realizar-se nos próximos meses, para incluir identificação de situações de machismo e como atuar nesses casos.
  • Decidimos pedir ajuda a uma entidade feminista e anticapitalista externa ao Climáximo que possa fornecer uma formação ao colectivo sobre situações de machismo dentro de coletivos e como lidar com estas.

O patriarcado está enraizado nas nossas culturas.

Todo o nosso ativismo é um processo de aprendizagem. Continuaremos a desafiarmo-nos.

Procedemos com o nosso trabalho contínuo de desenvolver o nosso entendimento sobre a cultura patriarcal e como a mitigar dentro dos nossos espaços de ativismo.

Saudações regenerativas,
Climáximo


Recursos de apoio a comissões criadas pelo processo para responder a acusações de machismo

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Guias sobre justiça transformativa e conflitos:

Artigos e zines sobre justiça transformativa:

Organizações / sites fixes que possam ter mais recursos:

*

Recursos sobre identificação, mitigação e ação face a situações de machismo

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Consentimento e violência machista:

Intervenção por preocupação / bystander / apoio a quem sofreu machismo:

Accountability e justiça transformativa:


 

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